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17/05/2004 00:48
Sempre era a mesma sensação. Voltava para casa com a certeza de que não havia ninguém à sua espera. Morava sozinho desde que mulher e filhos o abandonaram. Sim, o inacreditável e o inimaginável aconteceu. Fora casado um dia. E também tivera filhos. Não conseguiu levar o "Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria" que lera na adolescência por muito tempo. O casamento durou cinco anos. Antes não fora diferente. Voltava para casa com a certeza de que ninguém estava à sua espera, por mais que houvesse mulher e filhos em casa. A verdade é que ninguém nunca o esperou. Ou era ele quem não queria que alguém o esperasse? Talvez não se perguntasse, talvez não sentisse falta, talvez não vivesse neste mundo, e sim em um outro bem particular, onde não cabia ninguém, sequer ele mesmo. Uma certeza, além da que ninguém o esperava, ele tinha: não nascera para ser marido, muito menos para ser pai. Talvez tenha nascido para ser eternamente filho. Sim, a verdade é que não conseguia ser outra coisa. E nem filho fora por muito tempo. Perdera a mãe quando criança. Até hoje sente falta de uma voz terna lhe dizendo boa noite, durma bem, meu filho. Agora, como não há ninguém à sua espera, enrodilhado na cama, na madrugada gélida e melancólica de todos os dias, ele liga para a central do aparelho celular. Sim, os tempos são outros. Ele não quer saber o saldo de seus créditos, não quer ajuda, não quer resolver qualquer problema técnico, basta a gravação de um boa noite ao pé do ouvido, de madrugada, não importa de quem. Ele apenas quer dormir (bem).
enviada por Engavetada
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